Líderes de cinco das maiores economias emergentes do mundo, reunidos em uma cúpula nesta quinta-feira (13), vão rejeitar o uso da força no Oriente Médio e na Líbia, pedindo em lugar disso o diálogo e a não intervenção, segundo um rascunho de declaração que está sendo preparada pelos países.
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Os grandes países emergentes (Brics: Brasil, Rússia, Índia, China e, pela primeira vez, África do Sul) realizam nesta quinta-feira – noite de quarta-feira 12 no Brasil – uma cúpula centrada nas grandes questões internacionais, que deve confirmar o crescente peso desses países na esfera mundial.
O presidente chinês, Hu Jintao, recebe na ilha seus pares Dilma Rousseff - que iniciou na segunda-feira uma visita bilateral à China antes da cúpula dos Brics -, o russo Dmitri Medvedev, o sul-africano Jacob Zuma e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh.
O encontro acontece na estação balneária de Sanya, na paradisíaca ilha de Hainan, conhecida por suas belas praias e resorts como “Havaí da Ásia”.
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No contexto do Oriente Médio e do norte da África, especificamente da Líbia, os Brics "compartilham o princípio de que deve ser evitado o uso da força", segundo o rascunho de declaração, ao qual a agência de notícias Reuters teve acesso.
China, Rússia, Índia, Brasil e outros países em desenvolvimento condenaram os ataques aéreos liderados pelos EUA contra as forças líbias.
A África do Sul, por outro lado, votou a favor da resolução da Organização das Nações Unidas que autorizou os ataques. Contudo, durante visita que fez a Trípoli no domingo, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, pediu que a Otan suspenda os ataques aéreos.
Já em relação ao Oriente Médio, o Brasil tem tido uma atuação mais aguda dentre todos os Brics. O país tem criticado repetidamente a ampliação de colônias judaicas nos territórios palestinos e reconheceu no final do ano passado a chamada Palestina como um Estado independente. Diversos países da América do Sul, zona de influência do Brasil, seguiram a medida, o que irritou Israel.
A Autoridade Palestina deve apresentar em setembro, durante a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), um pedido de reconhecimento de sua soberania sobre o território conquistado por Israel durante a Guerra dos Seis dias, em 1967.
Cúpula marca entrada da África do Sul
No encontro, os líderes dos Brics devem analisar vários outros temas internacionais. A polêmica questão da cotação do yuan chinês não está oficialmente na agenda.
Em um comunicado, o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) afirmou que "a cúpula marcará a entrada da África do Sul no grupo, o que ampliará a representatividade geográfica do mecanismo no momento em que se busca, no plano internacional, a reforma do sistema financeiro e, de modo geral, maior democratização da liderança global".
Essa cúpula pode permitir à China, segunda maior economia do mundo, impor-se como líder dos emergentes e como contrapeso à influência dos países industrializados, consideram os analistas.
A chegada da África do Sul aos Brics é, sobretudo, simbólica no plano político, porque a maior economia africana representa apenas a décima sexta parte da economia chinesa, ressaltou especialista Andrew Kenningham, economista da Capital Economics.
Banco inventou a sigla em 2001
O banco de negócios Goldman Sachs inventou em 2001 a sigla Bric, em referência ao crescente peso das quatro economias emergentes. A China convidou a África do Sul a se juntar ao grupo no final do ano passado.
Os cinco países, que contam hoje em dia com mais de 40% da população mundial, representarão 61% do crescimento do planeta em 2014, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entre 2003 e 2010, o crescimento dos países Brics representou cerca de 40% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial, segundo dados divulgados pelo Itamaraty.
No mesmo período, o comércio entre Brasil e os outros Brics aumentou 575%, passando de US$ 10,71 bilhões em 2003 para US$ 72,23 bilhões em 2010 (cerca de R$ 115,8 bilhões, em cotações atuais).
O comércio total entre os Brics passou de US$ 38 bilhões em 2003 para US$ 143 bilhões em 2009 e há uma estimativa de US$ 220 bilhões em 2010 (R$ 350 bilhões, em cotações atuais), segundo as mesmas fontes.
Questões polêmicas, só nos bastidores
Os países Brics aproveitarão também sua cúpula para conversar sobre sua contribuição para a reforma do sistema monetário internacional, explicou Wu.
As questões que levantam problemas, como a cotação do yuan ou a reforma do Conselho de Segurança da ONU, não devem ser abordadas, ou serão apenas nos bastidores.
O Brasil queixa-se da fraca cotação do yuan, que provoca desequilíbrios no plano comercial.
Além disso, Brasil e Índia querem se tornar membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, pretensão apoiada pela Rússia, mas não explicitamente pela China.
A segunda cúpula dos Brics (com quatro membros), realizada no Brasil no ano passado, terminou concluída com um apelo à criação de uma ordem mundial "mais justa". A primeira tinha sido realizada em Ekaterimburgo (Rússia) em 2009.
A China não deu muitas indicações sobre o desenvolvimento desta terceira cúpula que, depois de ter sido anunciada a princípio para dois dias, parece se limitar por fim a apenas um dia, nesta quinta-feira.