O governo dos Estados Unidos classifica o Itamaraty como um foco "antiamericano" dentro do governo brasileiro, mostram confidenciais de diplomatas daquele país vazados pelo site WikiLeaks.
Os documentos ainda afirmam que o chanceler brasileiro, Celso Amorim, tem uma "obsessão" por um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Em um telegrama secreto de 2009 da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, um lugar na ONU é o que estaria levando o País a se comprometer no envio de tropas ao Haiti.
"O Itamaraty tem se mantido comprometido com a iniciativa (tropas de paz no Haiti) porque acredita que a operação serve à obsessiva meta internacional do ministro Amorim de qualificar o Brasil para um assento no Conselho de Segurança da ONU", afirma um telegrama secreto de 2009 da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Em outros documentos revelados também pelo WikiLeaks, o governo americano ainda ordenou que Brasil, Índia, Alemanha e Japão fossem espionados em sua ofensiva para obter um lugar no Conselho de Segurança e na reforma da ONU. O governo americano anunciou que apoiaria a candidatura da Índia ao Conselho de Segurança, mas silenciou sobre o Brasil.
Em outro relatório vazado pelo site, o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford Sobel, afirma que o ministro brasileiro da Defesa, Nelson Jobim, disse que o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, teria "ódio dos Estados Unidos". Jobim negou a informação e explicou que apenas descreveu Guimarães como "um nacionalista".
Preocupações
Ao contrário do Itamaraty, o ministro da Defesa é visto como "simpático" aos Estados Unidos. Ele também teria contado a Sobel que o presidente boliviano, Evo Morales, teve um "sério tumor na face", e que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ofereceu ao colega diagnóstico e tratamento em um hospital paulistano.
O documento, datado de 22 de janeiro de 2009 e enviado da Embaixada dos EUA em Brasília ao Departamento de Estado americano, não informa se Morales aceitou. O governo boliviano desmentiu a informação e afirmou que Morales fez uma cirurgia para corrigir uma sinusite aguda.
O ministro da Defesa ainda teria admitido a Sobel, em fevereiro de 2008, a preocupação do governo brasileiro com a possibilidade de a Venezuela desestabilizar a região. Ele ainda reconheceu que a presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no país de Hugo Chávez.
Ontem, Lula falou pela primeira vez sobre os documentos vazados. Segundo ele, os relatórios são "insignificantes" e "não merecem ser levados a sério". "Não sou obrigado a acreditar num telegrama de um embaixador americano ao invés de acreditar no meu ministro. Por que tenho que acreditar no americano, que já nem é mais embaixador aqui?", questionou.
O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, afirmou que a "próxima vítima" do site será "um grande banco dos Estados Unidos". Ele não deu mais detalhes, mas em uma entrevista dada à revista "Computerworld", Assange disse ter de dados do Bank of America.