O embaixador brasileiro no Haiti, Igor Kipman, que acompanha atentamente as últimas movimentações políticas em Porto Príncipe, disse não acreditar que o ex-ditador Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, possa entrar em um processo eleitoral já iniciado em novembro. Ele, contudo, não descarta uma “possibilidade remota” de que as eleições para presidente sejam anuladas, para o início de um outro processo, com novos atores.
“Nessa eleição em curso, ele não pode ser mais candidato. Mas o CEP (Comitê Eleitoral Provisório), diante de todos esses percalços e opiniões divergentes, pode decidir anular as eleições, e aí parte-se para um novo processo, abrem-se novas inscrições. Não é impossível”, disse Kipman, sem demonstrar preocupação de que esses desdobramentos causem tumulto. Autoridades do Brasil e do Haiti ainda não conversaram sobre o retorno do ex-ditador ao país, mas o governo brasileiro tem acompanhado com atenção os passos de Baby Doc no país.
“A chegada do Duvalier causou um frisson, como vocês estão testemunhando nas ruas. Há sempre essa saudade do governo dele, porque essas pessoas têm essa perspectiva de que, no governo dele, havia energia 24 horas por dia, havia mais segurança...”, afirmou, em coletiva na embaixada brasileira em Porto Príncipe.
Contudo, ele disse acreditar que, por já terem se passado quatro dias desde a chegada dele sem grandes manifestações de rua ou violência, o clima não tende a esquentar. Na quarta-feira, o advogado de Baby Doc, Reynold George, disse que o ex-ditador tem “pretensões políticas como qualquer político”. “Ser novamente presidente do Haiti é um direito dele”, disse George. Mais tarde, porém, Baby Doc negou ter pretensões políticas e desautorizou que falem sobre o assunto em seu nome.
O embaixador brasileiro acredita que, na próxima semana, o CEP anunciará um novo calendário eleitoral, com novos prazos inclusive de segundo turno e da posse presidencial. “Esse novo calendário vai contribuir, obviamente, para acalmar os ânimos todos da população”, afirmou. A previsão inicial é a de que Préval permaneça no poder até 7 de fevereiro, mas a Constituição do país permite que ele fique até 14 de maio, quando completa cinco anos na Presidência. O segundo turno é estimado para 20 de março. Na quarta-feira, a OEA divulgou o relatório de sua Comissão Especial de verificação, na qual recomenda que sejam feitas novas votações por conta de “irregularidades significativas” identificadas nas eleições de 28 de novembro