sábado, 8 de janeiro de 2011

HORA DE PENSAR EM SAIR

Os estrangeiros em missão de paz costumam ser bem recebidas no começo, mas sempre chega o momento em que sua presença é questionada. O diplomata brasileiro Ricardo Seitenfus levantou essa discussão sobre os cerca de 8.900 soldados que integram a missão das Nações Unidas no Haiti (Minustah), iniciada há seis anos. Em uma entrevista publicada na semana passada pelo jornal suíço Le Temps, Seitenfus, então representante especial da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti, disse que a ONU fracassou ao tratar o país como uma “ameaça à segurança internacional”.




Dias depois, afirmou que o Brasil, como comandante militar da Minustah e com uma tropa de 2.200 homens, não poderia ser o “guardião do cemitério” e deveria repensar sua presença no Haiti. Foi a primeira vez que um alto funcionário da comunidade internacional envolvida com o Haiti fez críticas tão diretas a seus pares. A OEA o afastou do cargo.



Seitenfus tem razão em apontar o desgaste no relacionamento entre a população e a Minustah. No surto de cólera que atingiu o país há um mês, haitianos jogaram pedras nos “capacetes azuis” da ONU por achar que a doença surgiu numa base da missão. Nem mesmo os brasileiros, que contam com mais simpatia dos haitianos, escaparam dos ataques. Há um sentimento de que a ONU poderia fazer mais pelo país do que só garantir a ordem pública, especialmente depois do terremoto que devastou a capital, Porto Príncipe, há um ano. Reduzir as tropas, porém, passa longe do comando da Minustah, ainda mais em meio à instabilidade provocada pelas eleições de novembro – atritos entre três candidatos devem adiar o segundo turno, previsto para este mês.



Para Seitenfus, o terremoto era a chance de a ONU mudar o foco para programas sociais e de reorganização do Estado. Depois do tremor, o Brasil reforçou o contingente militar com 900 homens. As tropas da Minustah, da qual participam outras 18 nações, cresceram em 2 mil soldados.



A maioria deixou de atuar em patrulhas e tem funções como reconstruir ruas, retirar entulho ou dar auxílio às vítimas do cólera. Numa nação de governos historicamente corruptos e com cultura de golpes, manter a ordem é essencial e acaba justificando o prolongamento da permanência das tropas – uma resolução garante o mandato da Minustah até outubro, e ele deve ser renovado por mais um ano. Mas não seria ruim se a ONU desconsiderasse o tom alarmista de Seitenfus e levasse em conta o cerne de suas críticas. Caso contrário, soldados brasileiros só sairão do Haiti para dar lugar a outros.